Por Davi Carvalho
A mesa da tarde do seminário promovido pelo projeto Trajetória da Saúde em SP – instituições, ideias e atores deslocou o foco da reconstrução inicial da história do sistema para uma análise dos efeitos acumulados das escolhas institucionais feitas ao longo do tempo. O debate concentrou-se nos desdobramentos dessas decisões sobre a atenção primária, a organização da rede de serviços e a governança do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado de São Paulo.
A mesa “As políticas de saúde nos anos 80: AIS, SUDS e a Constituição de 1988”, moderada por Ana Luiza Viana, contou com a participação de Ana Lígia Meira (Santa Casa de São Paulo); Nivaldo Carneiro Jr (Santa Casa de São Paulo); Suzana Cesar Gouveia Fernandes (Instituto Butantan) e Raphael Vinicius de Almeida Escritório (Instituto Butantan).
Diferentemente de leituras que opõem períodos de “construção” e “desmonte” do sistema, os participantes enfatizaram a necessidade de compreender a trajetória da saúde paulista como um processo marcado por ciclos, inflexões e recomposições. A mesa evidenciou que muitos dos dilemas enfrentados hoje pelo SUS em São Paulo não resultam de rupturas recentes, mas de arranjos institucionais consolidados ao longo de décadas.
Ao reafirmar o recorte territorial do projeto, o debate deixou claro que o objetivo não é explicar o SUS brasileiro em abstrato, mas em examinar como seus princípios foram apropriados, tensionados e, em alguns momentos, esvaziados no contexto paulista. Essa distinção foi central para evitar generalizações e para situar São Paulo como objeto empírico específico, ainda que sua experiência dialogue com processos nacionais.
Modelos em disputa
Um dos eixos centrais da mesa foi a discussão sobre os modelos de atenção à saúde que se consolidaram em São Paulo. A atenção primária apareceu como campo privilegiado para observar disputas históricas entre diferentes concepções de cuidado, organização do trabalho e papel do Estado. O debate destacou que a baixa cobertura da Estratégia Saúde da Família no estado não é um fenômeno recente, mas resultado de escolhas institucionais feitas desde os primeiros momentos de implantação do SUS.
Os participantes apontaram que São Paulo desenvolveu, ao longo do tempo, um modelo fortemente marcado pela especialização precoce e pela centralidade dos serviços ambulatoriais e hospitalares, em detrimento de uma atenção básica territorializada e integrada. Essa trajetória ajuda a explicar dificuldades persistentes de coordenação do cuidado e de articulação em rede, mesmo em contextos de elevada capacidade técnica e institucional.
Outro ponto recorrente foi a análise da relação entre o público e o privado na gestão dos serviços de saúde. A expansão das organizações sociais foi apresentada não como ruptura abrupta, mas como continuidade de lógicas gerenciais e financeiras que já estavam presentes em períodos anteriores. A mesa mostrou como instrumentos de gestão, mecanismos de contratação e formas de financiamento contribuíram para redefinir o papel do Estado, produzindo efeitos duradouros sobre a organização do sistema.
Ciclos institucionais
A mesa da tarde também enfatizou a importância de compreender a história da saúde em São Paulo como uma sucessão de ciclos institucionais. Esses ciclos combinam momentos de inovação, ampliação de direitos e fortalecimento do sistema público com fases de retração, fragmentação e redefinição de prioridades. Essa dinâmica foi apresentada como característica estrutural da trajetória paulista, e não como exceção.
O debate destacou que a municipalização da saúde, embora tenha ampliado a autonomia local, produziu efeitos desiguais no território paulista. Diferenças de capacidade administrativa, financiamento e estrutura institucional entre municípios contribuíram para aprofundar assimetrias regionais, dificultando a coordenação estadual e a consolidação de redes integradas de atenção.
Ao mesmo tempo, os participantes ressaltaram que o estado acumulou capacidades técnicas relevantes, especialmente na formação de quadros, na produção de conhecimento e na gestão de sistemas complexos. No entanto, essas capacidades não se traduziram automaticamente em maior coesão do sistema, revelando uma dissociação recorrente entre planejamento, execução e resultados.
A recuperação da memória institucional apareceu como elemento central do debate. Ao revisitar experiências passadas, a mesa mostrou que muitos instrumentos e arranjos hoje naturalizados no SUS paulista foram objeto de controvérsia em sua origem. O esquecimento dessas disputas tende a empobrecer o debate atual, ao ocultar alternativas que estiveram em jogo e foram abandonadas ou redefinidas ao longo do tempo.
Mídia e SUS
A mesa “Saúde e Mídia: percepções públicas e disputas políticas”, moderada por Tatiana Vasconcelos Anéas, trouxe o historiador Claudio Bertolli, e os jornalistas Sérgio Gomes e Gabriel Brito e foi dedicada integralmente à análise da cobertura da grande imprensa sobre o período 1983 a 1994, com foco na Folha de S.Paulo. O estudo apresentado examinou de forma sistemática 7.756 matérias publicadas ao longo daqueles 11 anos, oferecendo um retrato consistente de como o SUS foi enquadrado editorialmente ao longo do tempo.
A análise mostrou que a cobertura tende a associar o SUS de maneira recorrente a narrativas de crise, ineficiência e colapso, frequentemente desvinculadas dos processos históricos e institucionais que moldaram o sistema. Problemas estruturais aparecem, em grande parte das matérias, como falhas imediatas de gestão ou de desenho administrativo, com pouca contextualização sobre o papel do financiamento, das disputas federativas ou das escolhas políticas acumuladas ao longo das décadas.
Segundo os pesquisadores, esse padrão de cobertura é compatível com uma racionalidade neoliberal, na qual a saúde pública é tratada prioritariamente como problema fiscal e organizacional. Soluções sugeridas ou naturalizadas no noticiário tendem a privilegiar mecanismos de mercado, terceirização e eficiência gerencial, enquanto princípios constitutivos do SUS — como universalidade, integralidade e equidade — aparecem de forma marginal ou como entraves ao funcionamento do sistema.
O levantamento também indicou que esse enquadramento não é episódico nem restrito a momentos de crise sanitária. Trata-se de uma narrativa persistente, que atravessa diferentes conjunturas políticas e se mantém mesmo após a consolidação constitucional do SUS. Ao atuar como produtora de sentidos sobre a política de saúde, a mídia deixa de ser apenas observadora e passa a integrar o próprio campo de disputas, influenciando percepções públicas e delimitando o horizonte do debate.
Ao explicitar esse padrão, a mesa evidenciou a importância de compreender a mídia como ator institucional relevante na trajetória da saúde pública em São Paulo. A forma como o SUS é narrado ao longo do tempo ajuda a explicar não apenas a opinião pública sobre o sistema, mas também os limites impostos à sua defesa e expansão como política de Estado.
