Por Davi Carvalho

Em um cenário marcado pela circulação acelerada de informações e por leituras frequentemente fragmentadas da política pública, o projeto Trajetória da Saúde em SP – instituições, ideias e atores propõe um movimento inverso: recuperar o percurso histórico da saúde no estado de São Paulo como chave para compreender os desafios atuais do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa proposta orientou o seminário promovido pelo projeto, no dia 12 de dezembro de 2025, na Faculdade de Saúde Pública (USP). Na mesa da manhã participaram pesquisadores e especialistas para discutir os processos de formulação e, sobretudo, de implantação das políticas de saúde no território paulista.

A mesa “A construção do SUS e as políticas de saúde no Estado de São Paulo durante a redemocratização”, coordenada por Marília Louvison, da Faculdade de Saúde Pública da USP, a mesa contou com a participação de Nelson Ibañez (FCMSCSP e coordenador do projeto História da Saúde em São Paulo), Tatiana de Vasconcelos Aneas (Associação Paulista de Saúde Pública); Gilberto Natalino, sanitarista com trajetória na gestão municipal e estadual, ex-presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de São Paulo (Cosems-SP) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

O ponto de partida do debate foi a constatação de que São Paulo ocupa posição singular na história da saúde pública brasileira. Não apenas por sua escala demográfica e econômica, mas pelo papel que desempenhou na experimentação de arranjos institucionais que, em diferentes momentos, influenciaram políticas adotadas em outras partes do país. Ainda assim, os participantes foram enfáticos ao delimitar o recorte do projeto: a análise está centrada na trajetória paulista, sem confundi-la com a experiência nacional, ainda que, em muitos momentos, ela funcione como referência ou contraponto.

Ao longo da mesa, ficou evidente que compreender a saúde pública em São Paulo exige olhar para além das normas e diretrizes formais. O foco recaiu sobre os processos concretos de implantação das políticas, atravessados por disputas políticas, constrangimentos administrativos e escolhas institucionais que moldaram o funcionamento do sistema ao longo do tempo.

Ideias e disputas

As exposições destacaram que a trajetória da saúde em São Paulo foi marcada pela convivência — nem sempre pacífica — de diferentes concepções sobre o papel do Estado, da gestão pública e da organização dos serviços. Ideias associadas à reforma sanitária, à universalização do acesso e à regionalização coexistiram com abordagens mais tecnocráticas ou orientadas por lógicas gerenciais, frequentemente tensionadas por interesses corporativos e dinâmicas de mercado.

Essas disputas não se restringiram ao plano conceitual. Elas se materializaram em decisões sobre financiamento, organização da rede de serviços e distribuição de responsabilidades entre estado e municípios. A mesa evidenciou que a implantação do SUS em São Paulo foi menos um processo linear de aplicação de princípios constitucionais e mais um campo de negociações permanentes, em que avanços institucionais conviveram com mecanismos de fragmentação do sistema.

Os participantes também chamaram atenção para o fato de que consensos, quando existiram, foram parciais e circunstanciais. Houve reconhecimento do papel de São Paulo na construção de capacidades técnicas e administrativas na saúde pública, mas esse reconhecimento veio acompanhado de uma avaliação crítica sobre seus limites. A centralidade estadual não eliminou desigualdades regionais internas nem assegurou coerência entre planejamento e execução das políticas.

Implementação e legado

Um dos principais aportes da mesa da manhã foi recolocar a implantação no centro da análise histórica. Ao revisitar processos de descentralização e regionalização da saúde em São Paulo, os debatedores mostraram como decisões tomadas em diferentes períodos continuam a produzir efeitos no presente. A relação entre governo estadual e municípios apareceu como elemento estruturante dessa trajetória, marcada por assimetrias de capacidade administrativa e por disputas em torno da coordenação das redes de atenção.

O debate também evidenciou que muitos dos dilemas enfrentados atualmente pelo SUS paulista — como dificuldades de integração da rede, tensões entre o público e o privado e problemas de governança regional — não podem ser compreendidos como fenômenos recentes. Eles estão inscritos em trajetórias institucionais mais longas, que combinam inovação, resistência e adaptação a contextos políticos e econômicos mutáveis.

Ao tratar São Paulo como objeto empírico específico, a mesa contribuiu para qualificar o debate sobre o SUS ao evitar generalizações apressadas. A experiência paulista, embora frequentemente tomada como modelo, revela contradições que ajudam a entender tanto suas potencialidades quanto seus limites. Nesse sentido, o passado não foi apresentado como um inventário de acertos ou erros, mas como um conjunto de processos que ajudam a explicar por que o sistema opera hoje da forma como opera.

O seminário reforçou a importância de abordagens históricas para a análise da política de saúde. Ao iluminar a atuação de instituições, a circulação de ideias e o papel de atores estratégicos na implantação das políticas em São Paulo, o projeto Trajetória da Saúde em SP oferece subsídios para uma compreensão mais informada dos desafios contemporâneos do SUS. Mais do que revisitar a memória do setor, a iniciativa contribui para situar o debate atual em uma perspectiva de longo prazo, indispensável para pensar os caminhos da saúde pública no estado.

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